A MEDICINA PSICOSSOMÁTICA NA VISÃO DO

CARDIOLOGISTA WILSON DE OLIVEIRA JÚNIOR


O termo psicossomático apareceu há dois séculos para se referir à participação da psique nas doenças orgânicas, ganhando força durante todo o século passado.

        Importante ressaltar que a Medicina Psicossomática não é uma especialidade nem um ramo da Psiquiatria. Poderíamos defini-la como uma postura médica que postula uma visão integrada do homem, nos seus aspectos biopsiquicossociais, uma vez que ser médico inclui duas partes: uma representada pelos conhecimentos adquiridos durante a formação acadêmica e outra, subjetiva, representada pela capacidade de percepção do ser humano, nas suas diversas facetas. Em outras palavras, procura-se, na abordagem psicossomática, diagnosticar a doença e concomitantemente avaliar a pessoa do doente.

          A relação entre o psiquismo e o soma é tão antiga quanto a prática médica, pois Hipócrates considerava a Medicina como a ciência de cuidar da doença e a arte de cuidar do doente. Portanto, fica implícito que toda abordagem médica deve sempre levar em consideração não só os aspectos biológicos, mas também aqueles ligados à mente e ao ambiente em que vive a pessoa.

          Ao contrário do que ocorre com o modelo da consulta médica tradicional, onde o médico se volta apenas para o que ocorre com o corpo, na visão psicossomática, o médico volta-se para a doença que se manifesta no corpo através dos sintomas; na área da mente através da disfunção afetiva; e na área do mundo externo, através da conduta da pessoa. Portanto, ao atender o paciente, o médico deve ter uma visão mais abrangente do paciente, uma vez que o homem é um ser biopsiquicossocial indivisível.

          Com relação à Medicina moderna, é certo que os avanços tecnológicos trouxeram benefícios irrefutáveis no diagnóstico e tratamento das doenças. Sem desconsiderar estas vantagens, é necessário no entanto, evitar o deslumbramento ingênuo de alguns profissionais pela utilização de sofisticados exames, acreditando que o seu emprego produza uma Medicina à prova de erros. Sem dúvida, o médico atual domina técnicas de precisão e tem a sua disposição equipamentos sofisticados. Por outro lado, parece faltar-lhe uma correspondente capacidade na compreensão do doente como pessoa.
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          Tratar o doente é mais do que conhecer o doente. Embora o avanço tecnológico deva ser utilizado, as máquinas jamais poderão aquilatar e compreender o sofrimento do paciente, tampouco sanar os seus temores.
É imprescindível pois, que a relação médico-paciente seja estabelecida em uma situação de empatia, onde por um lado, o paciente possa expor suas dúvidas, temores e angústias e por outro, o médico também possa compreender o que realmente está se passando com o paciente, a nível físico e emocional, uma vez que todo ser humano é produto de um complexo que envolve o biológico, o emocional e o social.
Infelizmente, constatamos com tristeza, que o atual currículo médico dedica pouca ou nenhuma importância à formação humanística do Médico. Ele continua privilegiando o lado organicista e tecnicista da Medicina, em detrimento de uma formação mais abrangente. Isso propicia o surgimento de profissionais despreparados "robóticos" e computadorizados, ou seja, tecnicamente qualificados e humanamente medíocres.

          Faz-se necessário uma formação humanística paralela à formação técnica, uma vez que a prática da Medicina compreende três componentes essenciais:

1. bom nível de conhecimento médico;
2. disponibilidade tecnológica;
3. relação médico-paciente empática, onde além de uma boa anamnese e exame clínico, o médico procure escutar o paciente, lembrando que "saber escutar" é também uma ciência.

          A descoberta da Psicossomática foi para mim como uma passagem, onde pude começar a exercer a Medicina sonhada antes de ingressar na Universidade. O contato com a Psicossomática me tornou mais humano, melhorou meu relacionamento com as pessoa e comigo mesmo. Trouxe-me, portanto, benefícios tanto no plano profissional como pessoal.
Por fim, embora a Psicossomática tenha evoluído nessas três últimas décadas, muito ainda há que se fazer, pois, como afirmava Radechi: "Vírgula, porque o ponto final de uma ciência não existe e nunca poderá existir".


Wilson de Oliveira Júnior é Cardiologista, Professor da disciplina de Cardiologia da Universidade de Pernambuco, Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - Regional Recife, e Presidente de Honra da AMPARE.



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