Vigorexia: uma forma de adoecimento na cultura do corpo
Marcos Bittencourt – Psicólogo Clínico
O fenômeno da Vigorexia tem recebido, nos últimos anos, uma maior visibilidade por parte dos meios de comunicação, os quais têm dado destaque às questões psíquicas, biológicas e sociais que envolvem os sujeitos portadores, geralmente encontrados nas academias de ginástica e fisioculturismo das grandes cidades. Cada vez mais a Vigorexia tem sido inscrita no campo da psicopatologia recente e a sua relação com a dinâmica de subjetivação do indivíduo e a forma de adoecimento do mesmo, devido aos fatores sócio-culturais vigentes, visto que o fenômeno a ser estudado surge no contexto atual, onde o corpo é o principal meio de “vivenciar” possíveis satisfações e felicidade.
O termo “Vigorexia” é a tradução para a palavra “Overtraining”, da língua inglesa, cujo termo foi cunhado pelo psiquiatra americano Harrison G. Pope (apud BALLONE, 2006) e, cujo estudo, foi publicado pela primeira vez na revista Psychosomatic Medicine da Harvard University em 1990. Tratada como uma doença, também conhecida como Síndrome de Adônis (jovem tido como modelo de beleza masculina na mitologia grega), a Vigorexia é identificada na terminologia médica como Transtorno Dismórfico Muscular, uma subclassificação de um universo maior conhecido como Transtorno Dismórfico Corporal, listado na Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10 sob o código F45.2 (OMS, 1993) e na DSM-IV, sob o código F45.2-300.7 (BALLONE, 2008). Não é fácil receber nos consultórios de psicologia e psiquiatria pessoas com o transtorno, devido a dois fatores: primeiro, porque não se encontra pessoas com esse transtorno como encontramos facilmente pessoas com transtornos de humor e de ansiedade, por exemplo; segundo, porque a maior parte das pessoas vigoréxicas não assume que é portadora de um transtorno e,
por isso, não procura ajuda terapêutica.
Para Ballone (2006) a Vigorexia pode ser encontrada nos indivíduos que buscam apenas uma satisfação corporal influenciadas por modelos culturais, esportistas que querem ter melhores desempenhos e indivíduos cuja personalidade é introvertida, uma vez que a timidez ou retraimento social podem favorecer a busca do corpo perfeito como forma de compensação dos sentimentos de inferioridade.
O vigoréxico se olha no espelho e se vê sempre como um “franguinho” (termo utilizado nas academias para os que não têm uma musculatura dentro dos paradigmas dos que se acham mais fortes), fraco, mesmo estando o seu corpo com marcas evidentes de desenvolvimento muscular. É o oposto da anoréxica, que se vê gorda no espelho, mesmo estando o seu corpo praticamente esquelético. Sobre isso afirma Násio (2009, p.55): “As imagens mentais que forjamos de nosso corpo, substrato de nossa identidade, são imagens subjetivas e deformadas que falseiam a percepção de nós mesmos”. Por isso a pessoa passa horas e horas malhando na academia (ou em casa), todos os dias, preocupando-se com a dieta que deve seguir, sob prejuízo de suas relações sociais. Seus amigos são pouquíssimos ou quase nenhum; relações amorosas, nem pensar. O sujeito se fecha num amor narcísico de ordem primária, dirigido apenas a si mesmo. Em casa, seus familiares notam sua devoção extrema à prática física e reclamam bastante.
A Vigorexia, assim como outras doenças, pode causar outros problemas físicos e mentais, devido ao exercício físico praticado de forma exagerada e o consumo de vitamínicos e anabolizantes. O indivíduo que tem este transtorno pode vir a sofrer reações semelhantes ao estresse, como insônia, falta de apetite, desinteresse sexual, irritabilidade, entre outros. Quanto aos problemas físicos e estéticos, os mesmos podem apresentar desproporção displásica, também entre o corpo e a cabeça, problemas ósseos e articulares, falta de agilidade e encurtamento de músculos e tendões.
O consumo de esteróides e anabolizantes pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares, lesões hepáticas, disfunções sexuais, diminuição do tamanho dos testículos e maior propensão ao câncer de próstata. Para melhor diagnóstico da doença, deve existir sofrimento por parte do indivíduo, impossibilitando-o de cumprir os devidos compromissos sociais.
É comum passar horas na academia, preocupado com as dietas que deve seguir, esquecendo, assim, das relações sociais. Convém lembrar que não se deve enquadrar as pessoas que gostam de praticar ginástica e fisioculturismo (ou por prazer ou por esporte) como vigoréxicas. Para isso torna-se necessário investigar o comprometimento da qualidade de vida dessa pessoa a partir do conjunto de sintomas e características mencionadas neste artigo.
Os interessados em conhecer mais sobre o assunto podem acessar as referências bibliográficas deste artigo, além de outras abaixo sugeridas. Existe também um relatório de pesquisa feita pelo autor deste texto com outros psicólogos, na qual analisa o discurso de portadores do transtorno a partir de entrevistas feitas em academias e em redes sociais. Caso queira conhecer, escreva para marcos-bitenca@ig.com.br.
REFERÊNCIAS: BITTENCOURT, Marcos. et al. Faculdade Frassineti do Recife (Núcleo de Pesquisa e Iniciação Científica). Vigorexia: uma forma de adoecimento na cultura do corpo. Recife. 2010. / O Psicólogo MARCOS
BITTENCOURT é integrante do Conselho fiscal da AMPARE e faz parte também do “SPPA” (Serviço de Psicologia a Psiquiatria da AMPARE).
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