empre quis ter um relógio de bolso. Achava bonito, quando meu pai
tirava o dele de um pequeno bolso que, antigamente, havia nas calças
dos homens. Parece que era próprio para aqueles relógios
redondos e finos, quase como uma bolacha Maria.

Não faz muito tempo,
ganhei um de presente. Presente da minha mulher. As mulheres têm
certas sensibilidades que os homens não possuem.
O fato é que, hoje, tenho
um relógio de bolso. O surpreendente é que ele não
somente me dá conta das horas. Confirmei com ele uma antiga lição
que aprendi na convivência com as angústias alheias.
Observei que o ponteiro que marca os segundos é rápido e
agitado nos seus movimentos. Vê-se, a cada segundo, o que ele produz.
Não pára; está sempre mostrando serviço. É
da sua natureza. Se fosse uma pessoa, quem sabe, seria um “hiper-ativo”.
É o jeito dele.
O outro, o que marca os minutos,
com o seu passo cadenciado, comedido, não mostra com facilidade
seus movimentos. Sabemos que, caminha. Produz o que dele se espera. É
preciso, no entanto, calma e paciência para perceber seus movimentos.
Nem por isso produz pouco. Não “cria” apenas segundos;
constrói minutos.
O menor de todos – o que
marca as horas – esse, nem pensar em vê-lo movimentar-se.
Por mais paciência que tenhamos... Jamais iremos perceber sua marcha.
Mas, que ele se mexe, não há dúvida. Lento, lentíssimo
ele vai construindo não apenas segundos e minutos. É o artífice
das horas.
Extraordinário! Três
ponteiros com funções distintas, de conformação
diferente, cada um com seu ritmo próprio, fazem, praticamente,
a mesma coisa: indicam o tempo. São indicadores implacáveis
de nossa história. Eles nos falam do tempo que já passou.
E o tempo que ainda virá? Sobre isso, nada podem dizer.
Talvez a maior lição do meu relógio de bolso não
venha através das horas que inscreve em um relatório implacável
o tempo que já não temos mais. A grande lição
do meu relógio aparece através do silêncio de profunda
significação histórica. Ele não pode mostrar
o tempo que ainda virá. É sobre esse tempo que o meu relógio
não marca, que tenho de construir meus projetos e cumprir a missão
incrustada no meu sentido pessoal de vida.
O tempo que é só
meu e que ninguém poderá usá-lo, é também
o tempo que somente eu poderei perder. Usar ou perder o tempo dependerá
apenas da visão que temos da vida. Com certeza, é verdadeiro
o que dizia o velho sábio dos relatos bíblicos: “Há
tempo para todas as coisas debaixo do sol”.
Luiz Schettini Filho
Psicólogo e Escritor
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