os fins do século XX, o homem se deparava com o avanço desordenado da tecnologia, sobre o qual, perde irremediavelmente, o controle. Quebram os limites do tempo e espaço, o que lhe dá a absoluta sensação de vazio, falta de referência e instabilidade permanente.

       Uma verdadeira turbulência que ameaça o homem, em vias de perder a estrutura antiga e encontrar-se exposto a uma infinita produção de forças, contrapondo-se a uma finita nomeação dessas forças. Uma condição trágica que caracteriza a passagem do trans-humano para o humano, ou seja: a passagem desta situação geradora de impotência e medo, para uma nova situação onde resgate a potência de vida.

       A tendência do ser humano para lidar com esse abalo é fazer SINTOMA, que vem como uma defesa para manter cristalizado o contorno anterior.

       O transtorno do pânico é uma estratégia de sobrevivência a tudo isso. É um ataque ao próprio ser, a existência do indivíduo. Uma denúncia desse mal-estar gerado pelo exacerbado avanço da tecnologia (CIBERESPAÇO), que tanto vem aterrorizando a existência humana.

       A palavra pânico deriva de Pã - deus da mitologia grega - e representa um medo infundido, susto ou pavor repentino. Apavorado, o homem moderno não consegue acompanhar a rapidez da evolução tecnológica e se depara frente a um medo enlouquecedor de perder o corpo, de desintegrar-se, de morrer.

       O desafio que se lança ao psicólogo clínico é o de traçar cartografias que impliquem uma mudança de perspectiva na relação com o trágico: é preciso que o mal - estar que ele mobiliza, deixe de ser um trauma. Isto significa dizer que as forças que estão produzindo subjetividades hoje, não são as mesmas de dez anos atrás.

       A leitura contemporânea da clínica não permite mais se fixar num mesmo modelo teórico. É preciso um ato de reverter, rever os modelos tradicionais. Hoje não se pode trabalhar com um modelo estático.

       É preciso dar 'a escuta clínica, uma absoluta singularidade. Olhar cada indivíduo como único e devolver 'a clínica o dispositivo da singularidade. É reverter o Platonismo.

       O psicólogo clínico atual deverá estabelecer novos paradigmas que norteiem o processo terapêutico na escuta desses sintomas sociais, que tão bem denunciam o sentimento de menos valia que adoece o homem moderno. Mudar significa propor uma nova postura frente ao desconforto e ampliar o universo de possibilidades adequadas, para aquilo que este mal-estar indica.

       Seria dar um novo sentido 'a vida, em direção a capacidade de amar e desejar a vida com todas as imperfeições que ela comporta: vida e morte, prazer e dor, alegria e tristeza.

       Os psicólogos sofrem por excesso de psicologismo. Reduzem a leitura do sujeito ao psicológico, detendo-se exclusivamente a essa fonte, e desprezando as demais.

       O fazer clínica contemporâneo descola-se dessa visão reducionista para mais além. Absorve o psicológico e amplia o sujeito num universo maior.

       O homem é também efeito de outras causas. Está constantemente em processo de mudança, sendo atravessado por forças sociais, políticas, religiosas, econômicas, etc.

       Ao traçar estratégias de intervenção, o psicólogo fará o cliente refletir sobre o sentido da vida descolando-se assim do sintoma apresentado, para o vislumbre de novas possibilidades de existência.

       Penso que a alegria de viver depende da indeterminação que experimentamos interiormente de um imenso campo de possibilidades que jamais se esgotam, em seu perpétuo vir- a- ser cheio de surpresas. O que é bom ou ruim, o futuro dirá.

       Talvez pudéssemos experimentar que, em parte, nossa relação com as pessoas e o mundo tenderia ao encanto e nostalgia, desapego e contato profundo, porque ninguém sabe aonde chegarão as transformações, pelas quais, as coisas e a vida humana passarão.

       Saberíamos reconhecer no tempo que passa, a grandeza que permanece, e os laços perenes que unem os seres. Amor e Felicidade não seriam palavras vãs.



Matéria da Psicóloga Clínica /
Hospitalar e Diretora Técnica da AMPARE:
MARIA HELENA BALTAR CUNHA

 


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