E AGORA, JOSÉ?
Por Fernando Mineiro - fmineiro@uai.com.br
José tem 20 anos.Tendo passado no vestibular, resolveu comemorar essa proeza passando com sua namorada uns dias na praia. Nada com que se preocupar. Está com dinheiro, de férias no trabalho e só iniciará a faculdade no início do ano e, o que é mais importante, está com a pessoa que ama. José resolve curtir o passeio com sua namorada em uma praia tranqüila. Todo despreocupado descansa sob uma palmeira bebendo uma boa água de coco. De repente, sem nenhum motivo aparente, seu coração dispara, sua respiração fica curta e rápida, sente uma vertigem, começa a suar frio e ter formigamentos. Grita apavorado pedindo socorro à sua namorada. Ela, ao chegar, se desespera ao ver o seu rosto cheio de pavor. José acredita que está morrendo, que não conseguirá ser socorrido a tempo. Quanto mais apavorado fica, mais os sintomas se intensificam. Pessoas que estão por perto, ao ver aquela situação angustiante prestam-lhe solidariedade, o levam a um pronto-socorro da cidade. Isso dura uns 20 minutos. O médico de plantão o examina e diz: você não tem nada, está tudo normal. José, refeito de tudo, sem nenhuma explicação fica assustado. O que eu tive? Estou ficando louco? Assustados, voltam para sua cidade. O acontecido tirou todo a prazer do passeio.
Esse pesadelo volta a acontecer várias vezes com José. Em seu trabalho, em casa, no clube e na universidade e até dormindo. Não há lugar seguro, a "coisa" sempre aparece. Deprimido, pára de trabalhar, de estudar e se recusa sair de casa. Sua namorada tenta em vão lhe dar apoio. Ninguém lhe explica toda essa loucura. José acha que poderá perder o controle. A sua vida parou.
O que aconteceu com José?
José é portador do Transtorno do Pânico (TP), ou Síndrome do Pânico como é mais conhecido. Para entender bem o que é esse distúrbio, vamos voltar um pouco na história. Na pré-história, ao caçar para se alimentar, o homem pré-histórico tinha que lutar ou fugir devido ao perigo ameaçador dos grandes répteis. Seu cérebro o preparava para reagir bem nessas situações. Liberava substâncias que alteravam o seu organismo, dando-lhe mais força, velocidade e visão periférica. Passado o perigo, seu organismo voltava ao normal. Graças a essa particularidade, o homem pré-histórico não se extinguiu, o que possibilitou a nossa existência.
Herdamos essa defesa do homem pré-histórico. Quando enfrentamos uma situação de perigo real, um gatilho é acionado em nosso cérebro, as amígdalas cerebrais localizadas na parte frontal da cabeça, fazendo com que substâncias químicas sejam liberadas. Nosso corpo se transforma e, com isso, conseguimos lutar ou fugir. Não sentimos essa transformação, pois nossa atenção está direcionada ao perigo.
Mas José não estava em uma situação de perigo, o que isso tem a ver com ele?
Tem muito a ver com José e com 4% da população Brasileira, quase 7 milhões de pessoas. Certas pessoas, por uma questão de genética herdam uma predisposição a desenvolver o TP, um distúrbio químico do neurotransmissor serotonina. Situações traumáticas, estressantes ou angustiantes, podem fazer aflorar essa predisposição, fazendo com que as amígdalas cerebrais disparem sem que haja uma situação de perigo real. O corpo será preparado para enfrentar um perigo inexistente, ocasionando o surgimento de vários sintomas desagradáveis. Como não existe um perigo real, a atenção do portador será direcionada para a transformação de seu corpo, para os sintomas, o que fará com que se apavore acreditando que corre risco de vida.
Foi o que aconteceu com José, seu sistema de alerta disparou. Ele pode ser acionado em momentos imprevisíveis, em situações de total tranqüilidade, mas também devido ao stress e tensão, características da vida moderna, ou quando se tem perda de suporte social, familiar, ou profissional. Simultaneamente ao acionamento do gatilho das amígdalas cerebrais, ocorre a recaptação de neurotransmissores na fenda sináptica - espaço existente entre os neurônios - impedindo o fluxo dos neurotransmissores serotonina - substâncias que transportam as mensagens entre os neurônios. Outro fator que poderá acionar o gatilho das amígdalas cerebrais é a respiração torácica rápida e curta, presente nos momentos de ansiedade. Ela é estressante, induz pouca oxigenação e retém CO2, o que faz alterar o PH do sangue tornando-o mais ácido (normal é 7.4). A respiração correta é a abdominal diafragmática. Feita no momento de crise, pode diminuir a sua intensidade e seu tempo.
O que o José deve fazer?
José deve procurar um psiquiatra, para que ele, após descartar outras doenças com sintomas semelhantes ao TP, dentre elas, as doenças cardíacas, possa dar o diagnóstico correto. Dependendo da intensidade das crises, o psiquiatra poderá receitar antidepressivos para equilibrar o fluxo dos neurotransmissores; ansiolíticos para controlar a ansiedade e Terapia Cognitiva Comportamental para eliminar a agorafobia (medo por espaços abertos ou locais de difícil saída), caso ela se instale. José poderá recorrer a um(a) psicólogo(a) para fazer essa terapia.
Da parte do José, o que lhe cabe fazer?
Além de seguir as orientações de seu psiquiatra e de seu psicólogo, deverá alterar o seu modo de vida, vivendo um dia de cada vez, esquecendo-se de ontem, pois este não poderá ser alterado e só pensar no amanhã quando ele se tornar hoje. Deverá, ainda, mudar sua alimentação para alimentos que não agridam a mucosa gástrica, muito sofrida por ação do TP. Optar por alimentos de fácil digestão e que não contenham substâncias estimulantes. Procurar tornar hábito os exercícios respiratórios e de relaxamento, como também as caminhadas diárias, para ter o benefício da liberação da hormônio endorfina, um coadjuvante no controle do estresse, da depressão, além de eliminar o colesterol ruim (LDL), aumentar o bom (HDL), retardar a osteoporose e aumentar a capacidade cárdio-circulatória e respiratória.
Se José seguir o tratamento indicado, terá cura?
A cura em medicina é muito relativa, pois depende de vários fatores. Segundo pesquisas realizadas no Projeto Amban - Ambulatório de Ansiedade do Hospital das Clínicas de São Paulo, poderá acontecer em 20% dos casos diagnosticados e tratados, em média, após 7 anos sem sintomas.
Não conseguindo a cura, é possível conseguir o controle?
Sim, pode-se levar uma vida totalmente normal, sem crises, sem medicamentos, porém ainda com sintomas isolados, mas perfeitamente administráveis com exercícios respiratórios e de relaxamento.
O sofrimento de José o tornou muito negativo. Como isso pode ser alterado?
Há necessidade de educar a sua mente para que ela possa pensar e agir positivamente. Isso se consegue com técnicas da PNL - Programação Neurolingüística, um educador mental.
"Somos o que pensamos e acreditamos ser".
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